Ano 0 DC (depois do Covid): Que Mundo?

Rui Henrique Santos

  1. No momento em que se escrevem estas linhas (9 de Abril), o SARS-CoV-2 atingiu 209 países e territórios[i], infectando mais de um milhão e meio de pessoas e causando quase noventa mil mortes.[ii]

Uma cronologia oficial chinesa (sanitizada de avaliação crítica) publicada esta semana[iii], detalha o aparecimento de uma pneumonia desconhecida na província de Hubei em finais de Dezembro de 2019 e a 10 de Janeiro deste ano, a OMS garantia “não existir ou ser limitada a transmissão entre humanos”[iv].

Em pouco mais de dois meses, o SARS-CoV-2 paralisou o planeta.

A maioria dos Estados adoptou medidas de emergência[v], confinando cidadãos e limitando actividades, visando assim impedir um influxo catastrófico de casos aos respectivos serviços de saúde.

  1. Declarada e assumida a pandemia, assinalemos a inexistência de consenso científico sobre medidas protectivas a adoptar pelas populações, ignoram-se prazos para terapêuticas validadas ou vacinação em massa, desconhece-se a extensão da patogenicidade da doença, não se sabe o suficiente sobre a plausível ocorrência duma segunda vaga viral e eventuais possibilidades de reinfecção, e efectuam-se projecções, calculando centenas de milhares de mortos no hemisfério ocidental.[vi]

Se o panorama sanitário não fosse por si suficiente do “estado de excepção” dos dias que passamos, as consequências que se fazem sentir no campo político internacional atestam o evento “black swan” que decorre à escala global

  1. É sobre a imprevisibilidade que vivemos, que a maioria dos analistas de Relações Internacionais discorre em publicações várias que têm a ambição de antever o mundo DC (depois do COVID).[vii]

Baseados em cosmovisões pessimistas ou optimistas e influenciados pelas nossas epistemologias, sentimos uma necessidade absoluta de racionalizar e domar um acontecimento que nos remeteu à maior das insignificâncias individuais e colectivas.

Se enquanto pessoas podemos sucumbir a algo cinco milhões de vezes menor do que nós[viii], enquanto comunidades deparamo-nos com cenários calamitosos nas economias domésticas e internacionais, com repercussões sociais inimagináveis em sistemas com tamanha interdependência[ix]

E num momento em que ainda se combate a pandemia – com todas as incertezas já mencionadas – o que nos oferece dizer sobre o comportamento das Grandes Potências?

  1. Para a escola Realista das Relações Internacionais, apenas Estados com suficientes recursos e capacidades conseguem “fazer história” e dessa forma construir e consolidar uma determinada configuração de ordem internacional.

Nos períodos posteriores à Segunda Guerra Mundial e ao terminus da Guerra Fria, a concentração de poder de Washington, possibilitou a expansão dos seus valores, a aceitação do seu modelo e a determinado momento o seu reinado unipolar.

Como escreve Stephen Walt[x] em “The Hell of Good Intentions” (2018) no apogeu do seu estatuto de hiperpotência[xi], os Estados Unidos iniciaram a disseminação de um projecto hegemónico liberal, envolvendo-se em guerras intermináveis que possibilitaram um declínio estratégico, convidando á ascensão chinesa.

Como projectado por John Mearsheimer (2014) a questão chave do século 21 seria compreender os intentos de Pequim em rever o seu papel na ordem e a capacidade (e vontade) norte-americana em impedir ou retardar esse desígnio sínico.

  1. Sendo que esta interacção e rivalidade entre Grandes Potências tem uma certa lógica e comportamento estrutural, a eleição de Donald Trump em 2016 e a ocorrência desta pandemia (e de eleições nos EUA este ano) acrescentam riscos incalculáveis ao actual contexto.

Não nos pretendendo constituir em oráculos inexistentes, acreditamos ser possível exercer generalizações baseadas em probabilidades[xii], onde a maioria dos actores tenta antecipar os passos dos rivais, sabendo que a contraparte visa o mesmo desiderato.

Para isso temos que alimentar um modelo estrutural com dados actuais de vários níveis de análise (Waltz, 1959).

  1. Da natureza dos estadistas – Apelando à idiossincracia de Trump, é plausível e expectável antever (e que tem sucedido) uma crescente conflitualidade para com a China. Não só por fazer parte do seu nacionalismo de soma-zero, mas porque o calendário eleitoral e o provável foco originário viral possibilitam a sua narrativa antagónica de Pequim. A nível de política externa, se por um lado, Trump parece não marcar uma ruptura paradigmática e absoluta com anteriores administrações, a falta de pessoal nomeado e qualificado nas principais instituições federais e um nível de agência com impacto baseado na sua personalidade carismática com apelo directo à sua base pode garantir continuidade de uma política externa errática, caso eleito em Novembro. A 9 de Abril – em plena pandemia –  Donald Trump tem uma aceitação popular de 44,5%[xiii], superior em média à dos últimos dois incumbentes (Bush e Obama) em igual período dos respectivos mandatos. 
  1. Da natureza dos regimes – Os cenários macroeconómicos disponíveis oscilam entre uma depressão e um colapso absoluto. Estima-se que a paralisação actual da economia (não incluindo a China) ronde os 50% do PIB mundial, o comércio global pode diminuir entre 13 e 32 por cento, mais de 500 milhões de pessoas podem ser atingidas pela pobreza extrema, projectando-se de forma conservadora mais de 25 milhões de desempregados à escala global.[xiv]As economias norte-americana e chinesa, que se envolviam em proto guerras comerciais tendem a ser alvo de ciclos de “crescimento negativo”, que no caso de Pequim, podem não só comportar danos insustentáveis para a estabilidade do regime e assim fazer retornar uma maior autocracia interna bem como uma maior disponibilidade para recrudescer ímpetos nacionalistas de hegemonia regional a que Washington pode não ter recursos para acompanhar ou sequer vontade de responder, permitindo-se uma esfera de influência efectiva a Pequim na região do futuro
  1. Do Sistema Internacional – Para Waltz, a explicação do que ocorre de significativo (leia-se Guerra) no sistema internacional, tem que ser explicado sistemicamente. Ou seja, num sistema anárquico (sem polícia que acuda) e sem regras definidas (ao contrário da verticalidade doméstica) cada actor só pode entregar a sua sobrevivência aos seus recursos e capacidades. Mas Waltz reconhece que as mudanças estruturais têm que ser acompanhadas também por modificações internas, que em suma são causas primárias. E no contexto do combate a uma pandemia qual tem sido o comportamento dos Estados em anarquia? Comportamentos padronizados pela escola Realista há centenas de anos. Seja o “estado natureza” Hobbesiano na disputa por material médico, as incapacidades e recriminações do exemplar projecto pós-soberano europeu ou o fracasso das instituições internacionais e suas lideranças.[xv]
  1. Sim, é previsível que os populismos e radicalismos (de esquerda e direita) ganhem votos nas levas eleitorais pós-Covid. Lamentavelmente, a maioria dos cidadãos necessitará de explicações simplistas para um trauma tão complexo que invade calamitosamente a sociedade global. E sim, é mais do que expectável que Trump seja reeleito (não só pelas mesmas razões do crescendo populista, mas porque a sua base não o abandonará, antes radicalizará o seu apoio face a um candidato Democrata que não fará sequer o pleno interno) e que necessite de manipular a ameaça chinesa. O apontar claro de um inimigo resulta sempre em ambiente eleitoral, e face à pandemia, terroristas ou migrantes parecem não ser o perigo suficiente que anime simbolicamente a audiência cativa. Mas a China, habituada a uma interpretação temporal dos acontecimentos mundanos distinta ver-se-á confrontada pelo questionamento das suas lideranças e declínio económico que a obrigue a retorquir na mesma moeda. Ou seja, ao agitar de um inimigo.
  1. Na Guerra do Peloponeso, Tucídides[xvi] tratou a importância que a peste de Atenas em 430 a.c. teve no desfecho do conflito que opunha Atenas a Esparta culminando na derrota ateniense. As vastas considerações e implicações sociais e políticas se servem de reflexão não emitem parecer sobre repetições históricas, que aliás não se verificam porque o determinismo não se estabelece nas Ciências Sociais. Mas a leitura pessimista da História já é outro caso. Não há tempo de perigos ou de desconhecidos que não seja atravessado pelo brandir do pior que há em cada um de nós. É certo que há imagens de esperança individual nos noticiários das oito. Mas os Estados – como se tem visto – tendem-se a comportar exclusivamente para assegurar ou expandir a sua sobrevivência. E quando confrontados (na natureza dos líderes, regimes ou sistema internacional) com um inimigo invisível e microscópico, têm que o transformar em algo compreensível para todos. Em nenhum dos níveis de análise dedicados às duas grandes potências existe suficiente argumentação para um mundo melhor, depois do Covid. 

Rui Henrique Santos é doutorando em História e Teoria das Relações Internacionais, Bolseiro FCT e Investigador IPRI-NOVA.


[i] https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries

[ii] https://www.worldometers.info/coronavirus/

[iii] http://www.xinhuanet.com/english/2020-04/06/c_138951662.htm

[iv] https://www.who.int/news-room/detail/08-04-2020-who-timeline—covid-19

[v] https://www.icnl.org/covid19tracker/?location=105&issue=&date=&type=

[vi] https://covid19.healthdata.org/projections

[vii] https://www.politico.com/news/magazine/2020/03/19/coronavirus-effect-economy-life-society-analysis-covid-135579;https://www.foreignaffairs.com/articles/2020-03-18/coronavirus-could-reshape-global-orderhttps://foreignpolicy.com/2020/03/20/world-order-after-coroanvirus-pandemic/https://www.lowyinstitute.org/the-interpreter/pandemic-peace-or-anarchical-worldhttps://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-03-24/coronavirus-predicting-the-death-of-globalism-isn-t-realistichttps://www.dn.pt/mundo/geopolitica-do-virus-o-choque-america-china-11990132.html

[viii] https://www.bbc.com/future/article/20200210-coronavirus-finding-a-cure-to-fight-the-symptoms

[ix] https://www.wto.org/english/news_e/pres20_e/pr855_e.htmhttps://www.imf.org/en/News/Articles/2020/04/07/sp040920-SMs2020-Curtain-Raiser; https://www.tsf.pt/portugal/economia/previsoes-para-a-recessao-portuguesa-em-2020-vao-dos-08-aos-20-12045111.html

[x] E outros autores Realistas da chamada ala “restrainer” como Barry Posen, Christoper Layne, John Mearsheimer, Patrick Porter ou Robert Pape.

[xi] https://www.nytimes.com/1999/02/05/news/to-paris-us-looks-like-a-hyperpower.html

[xii] https://warontherocks.com/2020/01/on-the-current-confrontation-with-iran/

[xiii] https://projects.fivethirtyeight.com/trump-approval-ratings/

[xiv] https://www.theguardian.com/world/2020/apr/09/coronavirus-could-push-half-a-billion-people-into-poverty-oxfam-warns;https://www.dw.com/pt-002/as-consequ%C3%AAncias-da-covid-19-para-a-economia-mundial/a-53021449;http://www.ilo.org/global/about-the-ilo/newsroom/news/WCMS_739961/lang–en/index.htm;

[xv] https://observador.pt/2020/04/04/toma-la-da-ca-pirataria-faroeste-material-confiscado-e-compras-em-cash-a-guerra-pelos-equipamentos-de-protecaohttps://foreignpolicy.com/2020/03/10/the-multilateral-health-system-failed-to-stop-the-coronavirus;https://www.nytimes.com/2020/04/02/world/americas/coronavirus-united-nations-guterres.html

[xvi] https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/03/great-plague-athens-has-eerie-parallels-today/608545/

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