Ano 0 DC (depois do Covid): Que Mundo?

Rui Henrique Santos

  1. No momento em que se escrevem estas linhas (9 de Abril), o SARS-CoV-2 atingiu 209 países e territórios[i], infectando mais de um milhão e meio de pessoas e causando quase noventa mil mortes.[ii]

Uma cronologia oficial chinesa (sanitizada de avaliação crítica) publicada esta semana[iii], detalha o aparecimento de uma pneumonia desconhecida na província de Hubei em finais de Dezembro de 2019 e a 10 de Janeiro deste ano, a OMS garantia “não existir ou ser limitada a transmissão entre humanos”[iv].

Em pouco mais de dois meses, o SARS-CoV-2 paralisou o planeta.

A maioria dos Estados adoptou medidas de emergência[v], confinando cidadãos e limitando actividades, visando assim impedir um influxo catastrófico de casos aos respectivos serviços de saúde.

  1. Declarada e assumida a pandemia, assinalemos a inexistência de consenso científico sobre medidas protectivas a adoptar pelas populações, ignoram-se prazos para terapêuticas validadas ou vacinação em massa, desconhece-se a extensão da patogenicidade da doença, não se sabe o suficiente sobre a plausível ocorrência duma segunda vaga viral e eventuais possibilidades de reinfecção, e efectuam-se projecções, calculando centenas de milhares de mortos no hemisfério ocidental.[vi]

Se o panorama sanitário não fosse por si suficiente do “estado de excepção” dos dias que passamos, as consequências que se fazem sentir no campo político internacional atestam o evento “black swan” que decorre à escala global

  1. É sobre a imprevisibilidade que vivemos, que a maioria dos analistas de Relações Internacionais discorre em publicações várias que têm a ambição de antever o mundo DC (depois do COVID).[vii]

Baseados em cosmovisões pessimistas ou optimistas e influenciados pelas nossas epistemologias, sentimos uma necessidade absoluta de racionalizar e domar um acontecimento que nos remeteu à maior das insignificâncias individuais e colectivas.

Se enquanto pessoas podemos sucumbir a algo cinco milhões de vezes menor do que nós[viii], enquanto comunidades deparamo-nos com cenários calamitosos nas economias domésticas e internacionais, com repercussões sociais inimagináveis em sistemas com tamanha interdependência[ix]

E num momento em que ainda se combate a pandemia – com todas as incertezas já mencionadas – o que nos oferece dizer sobre o comportamento das Grandes Potências?

  1. Para a escola Realista das Relações Internacionais, apenas Estados com suficientes recursos e capacidades conseguem “fazer história” e dessa forma construir e consolidar uma determinada configuração de ordem internacional.

Nos períodos posteriores à Segunda Guerra Mundial e ao terminus da Guerra Fria, a concentração de poder de Washington, possibilitou a expansão dos seus valores, a aceitação do seu modelo e a determinado momento o seu reinado unipolar.

Como escreve Stephen Walt[x] em “The Hell of Good Intentions” (2018) no apogeu do seu estatuto de hiperpotência[xi], os Estados Unidos iniciaram a disseminação de um projecto hegemónico liberal, envolvendo-se em guerras intermináveis que possibilitaram um declínio estratégico, convidando á ascensão chinesa.

Como projectado por John Mearsheimer (2014) a questão chave do século 21 seria compreender os intentos de Pequim em rever o seu papel na ordem e a capacidade (e vontade) norte-americana em impedir ou retardar esse desígnio sínico.

  1. Sendo que esta interacção e rivalidade entre Grandes Potências tem uma certa lógica e comportamento estrutural, a eleição de Donald Trump em 2016 e a ocorrência desta pandemia (e de eleições nos EUA este ano) acrescentam riscos incalculáveis ao actual contexto.

Não nos pretendendo constituir em oráculos inexistentes, acreditamos ser possível exercer generalizações baseadas em probabilidades[xii], onde a maioria dos actores tenta antecipar os passos dos rivais, sabendo que a contraparte visa o mesmo desiderato.

Para isso temos que alimentar um modelo estrutural com dados actuais de vários níveis de análise (Waltz, 1959).

  1. Da natureza dos estadistas – Apelando à idiossincracia de Trump, é plausível e expectável antever (e que tem sucedido) uma crescente conflitualidade para com a China. Não só por fazer parte do seu nacionalismo de soma-zero, mas porque o calendário eleitoral e o provável foco originário viral possibilitam a sua narrativa antagónica de Pequim. A nível de política externa, se por um lado, Trump parece não marcar uma ruptura paradigmática e absoluta com anteriores administrações, a falta de pessoal nomeado e qualificado nas principais instituições federais e um nível de agência com impacto baseado na sua personalidade carismática com apelo directo à sua base pode garantir continuidade de uma política externa errática, caso eleito em Novembro. A 9 de Abril – em plena pandemia –  Donald Trump tem uma aceitação popular de 44,5%[xiii], superior em média à dos últimos dois incumbentes (Bush e Obama) em igual período dos respectivos mandatos. 
  1. Da natureza dos regimes – Os cenários macroeconómicos disponíveis oscilam entre uma depressão e um colapso absoluto. Estima-se que a paralisação actual da economia (não incluindo a China) ronde os 50% do PIB mundial, o comércio global pode diminuir entre 13 e 32 por cento, mais de 500 milhões de pessoas podem ser atingidas pela pobreza extrema, projectando-se de forma conservadora mais de 25 milhões de desempregados à escala global.[xiv]As economias norte-americana e chinesa, que se envolviam em proto guerras comerciais tendem a ser alvo de ciclos de “crescimento negativo”, que no caso de Pequim, podem não só comportar danos insustentáveis para a estabilidade do regime e assim fazer retornar uma maior autocracia interna bem como uma maior disponibilidade para recrudescer ímpetos nacionalistas de hegemonia regional a que Washington pode não ter recursos para acompanhar ou sequer vontade de responder, permitindo-se uma esfera de influência efectiva a Pequim na região do futuro
  1. Do Sistema Internacional – Para Waltz, a explicação do que ocorre de significativo (leia-se Guerra) no sistema internacional, tem que ser explicado sistemicamente. Ou seja, num sistema anárquico (sem polícia que acuda) e sem regras definidas (ao contrário da verticalidade doméstica) cada actor só pode entregar a sua sobrevivência aos seus recursos e capacidades. Mas Waltz reconhece que as mudanças estruturais têm que ser acompanhadas também por modificações internas, que em suma são causas primárias. E no contexto do combate a uma pandemia qual tem sido o comportamento dos Estados em anarquia? Comportamentos padronizados pela escola Realista há centenas de anos. Seja o “estado natureza” Hobbesiano na disputa por material médico, as incapacidades e recriminações do exemplar projecto pós-soberano europeu ou o fracasso das instituições internacionais e suas lideranças.[xv]
  1. Sim, é previsível que os populismos e radicalismos (de esquerda e direita) ganhem votos nas levas eleitorais pós-Covid. Lamentavelmente, a maioria dos cidadãos necessitará de explicações simplistas para um trauma tão complexo que invade calamitosamente a sociedade global. E sim, é mais do que expectável que Trump seja reeleito (não só pelas mesmas razões do crescendo populista, mas porque a sua base não o abandonará, antes radicalizará o seu apoio face a um candidato Democrata que não fará sequer o pleno interno) e que necessite de manipular a ameaça chinesa. O apontar claro de um inimigo resulta sempre em ambiente eleitoral, e face à pandemia, terroristas ou migrantes parecem não ser o perigo suficiente que anime simbolicamente a audiência cativa. Mas a China, habituada a uma interpretação temporal dos acontecimentos mundanos distinta ver-se-á confrontada pelo questionamento das suas lideranças e declínio económico que a obrigue a retorquir na mesma moeda. Ou seja, ao agitar de um inimigo.
  1. Na Guerra do Peloponeso, Tucídides[xvi] tratou a importância que a peste de Atenas em 430 a.c. teve no desfecho do conflito que opunha Atenas a Esparta culminando na derrota ateniense. As vastas considerações e implicações sociais e políticas se servem de reflexão não emitem parecer sobre repetições históricas, que aliás não se verificam porque o determinismo não se estabelece nas Ciências Sociais. Mas a leitura pessimista da História já é outro caso. Não há tempo de perigos ou de desconhecidos que não seja atravessado pelo brandir do pior que há em cada um de nós. É certo que há imagens de esperança individual nos noticiários das oito. Mas os Estados – como se tem visto – tendem-se a comportar exclusivamente para assegurar ou expandir a sua sobrevivência. E quando confrontados (na natureza dos líderes, regimes ou sistema internacional) com um inimigo invisível e microscópico, têm que o transformar em algo compreensível para todos. Em nenhum dos níveis de análise dedicados às duas grandes potências existe suficiente argumentação para um mundo melhor, depois do Covid. 

Rui Henrique Santos é doutorando em História e Teoria das Relações Internacionais, Bolseiro FCT e Investigador IPRI-NOVA.


[i] https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries

[ii] https://www.worldometers.info/coronavirus/

[iii] http://www.xinhuanet.com/english/2020-04/06/c_138951662.htm

[iv] https://www.who.int/news-room/detail/08-04-2020-who-timeline—covid-19

[v] https://www.icnl.org/covid19tracker/?location=105&issue=&date=&type=

[vi] https://covid19.healthdata.org/projections

[vii] https://www.politico.com/news/magazine/2020/03/19/coronavirus-effect-economy-life-society-analysis-covid-135579;https://www.foreignaffairs.com/articles/2020-03-18/coronavirus-could-reshape-global-orderhttps://foreignpolicy.com/2020/03/20/world-order-after-coroanvirus-pandemic/https://www.lowyinstitute.org/the-interpreter/pandemic-peace-or-anarchical-worldhttps://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-03-24/coronavirus-predicting-the-death-of-globalism-isn-t-realistichttps://www.dn.pt/mundo/geopolitica-do-virus-o-choque-america-china-11990132.html

[viii] https://www.bbc.com/future/article/20200210-coronavirus-finding-a-cure-to-fight-the-symptoms

[ix] https://www.wto.org/english/news_e/pres20_e/pr855_e.htmhttps://www.imf.org/en/News/Articles/2020/04/07/sp040920-SMs2020-Curtain-Raiser; https://www.tsf.pt/portugal/economia/previsoes-para-a-recessao-portuguesa-em-2020-vao-dos-08-aos-20-12045111.html

[x] E outros autores Realistas da chamada ala “restrainer” como Barry Posen, Christoper Layne, John Mearsheimer, Patrick Porter ou Robert Pape.

[xi] https://www.nytimes.com/1999/02/05/news/to-paris-us-looks-like-a-hyperpower.html

[xii] https://warontherocks.com/2020/01/on-the-current-confrontation-with-iran/

[xiii] https://projects.fivethirtyeight.com/trump-approval-ratings/

[xiv] https://www.theguardian.com/world/2020/apr/09/coronavirus-could-push-half-a-billion-people-into-poverty-oxfam-warns;https://www.dw.com/pt-002/as-consequ%C3%AAncias-da-covid-19-para-a-economia-mundial/a-53021449;http://www.ilo.org/global/about-the-ilo/newsroom/news/WCMS_739961/lang–en/index.htm;

[xv] https://observador.pt/2020/04/04/toma-la-da-ca-pirataria-faroeste-material-confiscado-e-compras-em-cash-a-guerra-pelos-equipamentos-de-protecaohttps://foreignpolicy.com/2020/03/10/the-multilateral-health-system-failed-to-stop-the-coronavirus;https://www.nytimes.com/2020/04/02/world/americas/coronavirus-united-nations-guterres.html

[xvi] https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/03/great-plague-athens-has-eerie-parallels-today/608545/

Política Internacional e o Panorama das Relações Internacionais

A fim de inaugurar o Congresso do ano letivo 2019/2020 do Núcleo de Estudos de Ciência Política e Relações Internacionais (NECPRI) – Two Decades of the 21st Century: What has been our path?, de 23 a 26 de março na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa -, o primeiro simpósio debruçar-se-á sobre Política Internacional e o Panorama das Relações Internacionais (RI).

Com efeito, perseguindo o mote avançado pelo Congresso – o de debater, perorar e compreender as dinâmicas e evolução destas duas décadas volvidas de uma nova centúria (e milénio), pesando o seu balanço e as projeções para o futuro -, o NECPRI propõe uma análise, qualificada e interessada, tanto aos aspetos distintivos e caracterizadores deste novo século no âmbito das RI como a uma antecipação da cena internacional, nas suas múltiplas vertentes e manifestações, nos tempos vindouros.

Para almejar tal resolução, esta conferência inaugural do Congresso 2020 do NECPRI decompõe-se, a priori, na identificação de três subtópicos para debate, como fundacionais para o entendimento destas duas décadas neste domínio: (1) Alterações no Sistema Internacional, (2) Instituições Internacionais e Multilateralismo e (3) Panorama da Guerra.

Discorrendo sobre o primeiro subtema – Alterações no Sistema Internacional -, e contrariando com uma década de 90 fortemente marcada pelo que foi definido como o “momento unipolar americano” – onde uma leitura rápida da distribuição de poder no Sistema Internacional de Estados saído da Guerra Fria impunha uma certa analogia com a posse relativa de fatores abstratos de poder à data do Império Romano -; o mundo do século XXI, no mínimo, faz-nos ter dúvidas, legítimas, sobre a existência de um hegemon. Tratada no pós-colapso da bipolaridade como hiperpotência, os Estados Unidos gozaram do seu estatuto incontestado para, em 2003, à revelia de grande parte da dita Sociedade Internacional, apresentar uma análise de custo-benefício onde era racional invadir o Iraque. Daí – e de muitos outros fatores -, além da quase unanime condenação da opinião pública, também se notam mudanças no plano institucional e dos fazedores de política externa: a necessidade das demais potências garantirem meios de inserção no Sistema Internacional, capazes de afirmar os seus interesses soberanos. A Rússia e a China – esta canalizando os seus longos anos de crescimento económico de dois dígitos para outros fatores abstratos de poder – redefinem as suas agendas, estabelecem novos objetivos e procurar afirmar-se na cena internacional. Disto isto, em que ponto da distribuição de poder estamos? Permanecemos numa unipolaridade, mas a caminhar para o declínio americano ou já atingimos a multipolaridade, disputada não só pelas potências referidas, mas também por outras ditas emergentes – Índia, Brasil e África do Sul, de modo a completar o leque dos BRICS -, salientando-se os regionalismos? E que peso terá uma diferente distribuição das capacidades ao nível da Ordem Internacional e dos seus princípios core: onde se encontrará meios de enforcement de toda uma arquitetura multilateral e universalista se – ou quando – aqueles que foram os paladinos da sua institucionalização em instituições e em Tratados não tiverem afirmação relativa para os suster de outros projetos revisionistas? Ou mesmo quando os seus proponentes parecem agora ter ideias isolacionistas e bilaterais? Esperamos que Professora Doutora Ana Santos Pinto nos ajude a compreender este e demais assuntos – como a redefinição das alianças – nesta dimensão.

Aproveitando o balanço da Ordem Internacional referida, trataremos também a temática das Instituições Internacionais e Multilateralismo. Em adição à importante consideração wendtiana da relação poder-ideias, o debate neste campo deve perseguir ainda outras questões. De facto, passados cerca de 75 anos da Conferência de São Francisco, em que patamar estamos do multilateralismo: qual é abrangência das Organizações Internacionais, mas sobretudo qual é a sua eficácia e crédito pelos Estados Soberanos? Para que serve a não-vinculativa Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas? Que importância estabelecem os países na sua definição de política externa para o método multilateral? Questões fundamentais de orientação em Política Internacional, que devem recair também, por outro lado, nas reformas destes organismos, não nos cingindo a uma mera atualização das capacidades de poder, mas também no interesse de dotar as instituições internacionais com o estatuto de verdadeiros centros de governance mundial, com a presença alargada a atores não estatais, para debater e particularmente responder a novos e complexos fenómenos de expressão além-fronteiras. Com este referencial, contamos com o contributo e leitura do Doutor Miguel Ferreira da Silva.

Por fim, sempre interligado e nunca de somenos, abordar-se-á o Panorama da Guerra. Não obstante o Art. 2º(4) da Carta das Nações Unidas e da sua exceção no Art. 51º do mesmo documento, a guerra, enquanto instrumento de materialização e busca do garante de ambições políticas, religiosas, económicas, etc, permanece, todavia mutada. Pesando os efeitos defensivo-dissuasores das ogivas nucleares partilhados entre potências com interesses divergentes – e também toda a arquitetura jurídica anteriormente referida, práticas de cooperação multilaterais, proliferação de Tratados, interligação económica, entre demais fatores – a atividade militar, mas sobretudo a possibilidade do seu recurso dentro das agendas mudou drasticamente. Ascendem novos tipos de conflitos, novas lógicas de guerra, acompanhados de novos atores beligerantes e novas técnicas de destruição. Que preponderância têm os exércitos e as armas convencionais na entrada para a terceira década do século XXI? Como se integram num cenário de hybrid cyber warfare, mas também das armas de destruição maciça e dos arsenais químicos e nucleares? Da mesma forma, que leitura se pode fazer do terrorismo, da sua expressão transnacional e da assimetria entre mediatismo e número de baixas? E, dentro disto tudo, onde cabe o Estado, o seu monopólio da força, os seus serviços de Defesa e as noções de “segurança” e  “risco”? Para estas questões, serão essenciais as respostas do Professor Doutor Felipe Pathé Duarte.

Eis as principais linhas e fio condutor do debate do primeiro dia do Congresso “Two Decades of the 21st Century: What has been our path?”, com a moderação do Dr. António Mateus, focado em otimizar a compreensão do cenário internacional que nos rodeia – complexo e, sempre, numa constante mutação.

Afonso Carvalho

ERASMUS: Perugia, uma surpresa acolhedora

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre.

Participar no programa Erasmus foi uma das melhores decisões da minha vida e, se voltasse atrás, faria tudo igual. Foi algo que sempre me interessou, desde a primeira vez que ouvi falar dele, e sabia que algum dia iria querer ter a experiência enriquecedora de que tantos estudantes europeus falam.

A parte inicial do processo foi algo complicada pois existem inúmeras opções de escolha. Percebi, desde o início, que iria optar por uma rota diferente do habitual. Foi a partir daí que comecei a dar atenção a Perugia, uma cidade no meio da “bota” italiana, da qual não tinha ouvido falar anteriormente. Embora me tenha candidatado também a destinos mais comuns, o facto de ser numa cidade a que poucos se candidatariam, ser num meio mais pequeno e acolhedor e em que teria mais oportunidades de fazer esta aventura sozinho, foram fatores cruciais desde o início para a minha decisão.

Acho que deve dar-se um benefício de dúvida a destinos como Perugia, que não são muito falados ou facilmente descartados. A inexistência de experiências de Erasmus nesta cidade ainda me deixou mais intrigado; vi-a como uma oportunidade de sair completamente da minha zona de conforto e lançar-me ao desconhecido e, pela primeira vez, não depender de alguém para algo.

Olhando para trás, estava certo em relação a tudo isto: foi uma experiência muito enriquecedora que me deu extrema valorização e crescimento pessoal, além de aumentar a minha independência, algo que sempre quis de início.

Para vos dar uma breve apresentação da cidade, Perugia é uma cidade localizada no centro de Itália, sendo a capital da região de Úmbria. É sobretudo conhecida pelos seus elementos medievais que podem ser vistos em toda a arquitetura do centro histórico, por ser a capital do chocolate (sendo casa da marca italiana mais famosa, a Perugina) e pelas atividades dinâmicas que apresenta o ano inteiro. Há sempre algo para fazer ou experimentar! Contudo, a que considero mais relevante é o Eurochocolate, uma tradição que acontece todos os anos pelo mês de outubro, em que a cidade se transforma uma autêntica Feira do Chocolate, produzindo-o para todos os gostos e feitios.

O centro histórico é sem dúvida a zona mais importante da cidade, encontrando-se a uma altitude de cerca de 500m. Miradouros e paisagens incríveis é o que não falta, sendo que o centro está bem conectado com a periferia e vários pontos importantes, como as estações de comboio ou autocarro, através de uma série de escadas rolantes ou o famoso MiniMetro, uma das inovações da cidade.

O custo de vida em Itália é mais caro, mas não é uma diferença abismal, pelo que mesmo os mais poupados conseguem viver aqui perfeitamente. Refeições em restaurantes e boas pizzarias, por exemplo, rondam os 10€. Em termos de alojamento, tive de procurar por mim próprio, visto que não havia residência universitária disponível, mas, se for feita uma pesquisa antecipada, consegue-se encontrar algo económico numa localização próxima do centro. Devido à sua localização central, Perugia é um ponto de fácil acesso para cidades importantes e turísticas, como Roma e Florença, estando a 3 horas destas, pelo que viajar por Itália não será um problema.

No que toca à universidade em si, em Perugia existem duas universidades principais: a FCSH tem um acordo com a mais pequena das duas, a famosa Universidade para Estrangeiros. O seu foco principal são os cursos de língua e cultura italiana, sendo mais comum encontrar-se aqui estudantes internacionais que italianos. Dito isto, os cursos de licenciatura e mestrado têm dimensões mais pequenas das quais estamos habituados, tendo as cadeiras que frequentei por norma 10 alunos na sala de aula. 

As aulas são lecionadas na sua maioria em italiano, mas não creio que haja grande dificuldade em acompanhá-las mesmo que não se conheça bem a língua. Achei o rumo das aulas interessante, visto que, havendo um número menor de pessoas, faz com que as aulas sejam menos de exposição e permite que haja uma constante interação entre professor-aluno, debate e esclarecimento de dúvidas. A principal diferença que notei foi no que toca aos exames, que normalmente são orais ao invés de escritos.

Um importante ponto a ressaltar para os mais apaixonados por línguas é que a universidade oferece acesso gratuito aos seus cursos de língua italiana, lecionado no Palazzo Gallenga, um antigo palácio (que dá outro charme às aulas).

Tudo o que precisa de ser feito é um teste inicial para verificar a que nível o aluno se encontra, e depois pode decidir frequentar essas aulas com regularidade ou não. No entanto, é de salientar que este curso pode ser incorporado no Learning Agreement! Eu aproveitei esta oportunidade porque comecei a interessar-me pela língua e recomendo tal, pois apesar de haver aulas diárias, aprendi e adaptei-me à língua e vida quotidiana graças a este curso, sendo que foi aqui que criei os maiores laços e conheci pessoas que levarei para a vida.

Considero a minha experiência diferente, pois não precisei de um núcleo de estudantes Erasmus para me divertir e aderir a atividades na maior parte. Aliás, a minha experiência ultrapassou muito o convívio europeu, foi mais um verdadeiro convívio internacional. Por ser uma universidade pequena, poucas pessoas fazem Erasmus nesta (a maioria dos estudantes Erasmus encontram-se na “universidade rival”) e, pela minha escolha de frequentar o curso de italiano, conheci pessoas dos quatro cantos do mundo.

Algo que se tornou um hábito foi a ida ao famoso Café Pinturicchio, próximo da universidade, onde se organizam variados eventos de convívio internacional, em que se conhece o mais variado tipo de pessoas e culturas, e onde se partilham histórias de vida intermináveis.

Concluindo, o facto de ter tido um Erasmus fora do comum foi um dos pontos que mais valorizo desta experiência, sinto que a tornou mais autêntica e interessante. Permitiu-me desenvolver uma mente aberta mais do que já tinha, pois foi o meu primeiro grande contacto com outras realidades e culturas. Poderia continuar infinitamente sobre o porquê do Erasmus valer a pena, mas a verdade é que é uma experiência muito pessoal e que depende de cada um. Apenas refiro que é algo que vos marcará para toda a vida e que recordarão sempre com um carinho especial.

Experiência ERASMUS do André Abrantes.

ERASMUS: ‘My house in Budapest, my hidden treasure chest’

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre.

“Casa” – a palavra e o sentimento de que senti falta tantas (e tantas) vezes, nesta que foi a minha primeira experiência longe de tudo o que era seguro, familiar, conhecido. Não vou mentir – decidir partir sozinha para um país onde a língua tornou cada ida ao supermercado um desafio; um país onde nunca tinha estado e, por isso, não sabia o que esperar; onde teria de partilhar casa com pessoas que não conhecia – foram questões que levantei a mim própria várias vezes antes de fazer as malas. Escolhi a cidade como destino de Erasmus numa noite em que alguém me disse “porque não Budapeste?” – e pensei “e porque não Budapeste?”.

Apaixonei-me pela cidade desde o primeiro dia. De Buda a Peste, não existe um cantinho que não valha a pena conhecer – e que sorte a minha de ter encontrado pessoas incríveis com quem os partilhar. A cidade vale pelos monumentos, pelas paisagens, pela arquitetura, pela cultura, e por todos os lugares a que poderão ir vezes sem conta, mas sentir sempre vontade de voltar. O Danúbio tem o pôr-do-sol mais bonito de sempre. A própria Hungria – no geral – tem muito para oferecer: pequenas cidades onde a grandeza reside nos detalhes.

O passe mensal para estudantes tem um custo de apenas 3450 forints (aproximadamente 11€), e permite-vos usufruir de toda a rede de transportes em Budapeste, desde o metro, os tram’s, os autocarros, e até certos barcos. Os transportes são um ponto muito forte da cidade – são extremamente eficientes e pontuais, e nos meses mais frios são indispensáveis. Por se situar no centro da Europa, conhecer outros países a partir da Hungria é mais fácil, e também mais barato – têm várias opções de transportes, seja de autocarro (Flixbus) ou comboio. Este foi para mim um critério de escolha muito importante, uma vez que me permitiu visitar outras cidades e países regularmente.

A Hungria não pertence à Zona Euro, tendo a sua própria moeda – o forint húngaro. Um grande desafio na hora das compras, devo dizer, visto que 1€ equivale a aproximadamente 300 forints. Contudo, os preços são, no geral, mais baixos do que em Lisboa no que diz respeito às idas ao supermercado.

Arranjar casa foi bastante complicado, pois a maioria dos senhorios procura arrendamento a longo prazo (10 ou mais meses), e a Faculdade não dispõe de residência. Ainda assim, com sites como o Erasmusu e com algumas dicas que vos são dadas pela Faculdade, é possível encontrar um quarto a preços bastante razoáveis – mais baratos do que em Lisboa, na maioria dos casos.

Da Faculdade – Corvinus University of Budapest – tenho apenas aspetos positivos a apontar. Têm uma grande variedade de unidades curriculares por onde escolher, bastante distintas e interessantes, muitas das quais se debruçam sobre a Europa Central e de Leste, e acerca do passado comunista destes países. As aulas são exclusivamente lecionadas em inglês, o que derruba a barreira linguística – podem optar por escolher aprender húngaro, mas acreditem, não será nada fácil (a língua húngara é uma das mais difíceis do mundo, tendo 45 letras de alfabeto). Os professores e coordenadores são muito acessíveis e terão sempre tempo para vos ajudar. As instalações não ficam nada atrás – têm salas e auditórios muito modernos, com ar condicionado e aquecimento central (muito necessário durante o Inverno); wi-fi e uma biblioteca com várias obras disponíveis para consulta, bem como computadores. Fica aqui a dica: se gostarem de estudar em bibliotecas, experimentem a Metropolitan Ervin Szabó Library, especialmente a ala do “Palace”.

Não se esqueçam de experimentar a gastronomia típica húngara, onde o Goulash e o Langós têm destaque, juntamente com a pálinka, e o vinho branco misturado com água com gás. Se ficarão fãs? Não há certezas de nada. Um pequeno conselho: ao comprarem água engarrafada, escolham aquelas que tiverem a tampa cor-de-rosa – ou então, como num caso verídico, irão passar uma semana a beber água com gás até acertarem.

Para ser sincera, apesar de ter sido uma experiência única que me proporcionou vivências que nunca esquecerei, não é justo dizer que foi sempre fácil. Por diversas vezes senti-me desamparada – e por mais que tentasse negar, foi este o sentimento que imperou em certos dias. Foi também um desafio aceitar que algumas das expectativas que levamos podem não corresponder à realidade: é importante lembrarmo-nos de que cada experiência é única e não tem, de todo, de ser igual ou mesmo parecida com qualquer outra – o Erasmus, como tudo o resto, é o que nós fazemos dele. Não quero com isto dizer que devem recear dar este passo, pois uma vez ultrapassada esta fase inicial, aprendi que o que custa realmente é regressar. “Casa” pode tomar diversas formas, e esta será sempre a minha casa longe de casa.

Foi nesta grande cidade, num país entre o centro e o leste da Europa, que deixei um pedacinho de mim, mas que nunca me deixará, e que será sempre em parte minha, por todos os pedacinhos que levo comigo.

Obrigada pela companhia. Até já.

Experiência ERASMUS da Ani Davidova.

ERASMUS: Praga, o cenário ideal para uma experiência inesquecível

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre.

Num dos postais que trouxe do meu Erasmus, é possível ler “Prague never lets you go. This dear little mother has sharp claws”.  Esta frase, da autoria de Franz Kafka, tem o seu encanto aos olhos de quem lá passou três meses e deixou naquela cidade um pedacinho seu, ao mesmo tempo que acabou por trazer consigo “bagagem extra”!

Foi no dia 19 de setembro de 2019 que tudo começou, embarquei para uma das experiências da minha vida. Estava nervosa com a ideia de sair da minha zona de conforto, mas crente de que desta experiência adviriam inúmeras aprendizagens. A minha mãe acompanhou-me nos primeiros dias, nos quais aproveitei para me ambientar à cidade, que já tinha visitado há cerca de quatro anos. A beleza de Praga é indiscutível. Desde monumentos históricos incríveis, às ruas e praças cheias de vida, até às vistas panorâmicas que deixam qualquer amante de fotografia deslumbrado, a cidade está cheia de recantos por descobrir. O cheiro que se sente pelo centro de Praga agrada, certamente, aos mais gulosos, que podem deliciar-se com um ‘Trdelník’, um doce que (apesar de, segundo locais, não ser típico) se vende muito na zona central da cidade e em outros lugares da República Checa.

Passado um início de estadia mais descontraído, começa realmente a aventura de viver e estudar em Praga. Um dos grandes desafios que sabia que iria enfrentar era a residência da universidade onde fiquei alojada durante o meu Erasmus. Partilhar casa de banho e cozinha durante um período considerável com pessoas que desconhecia era uma completa novidade para mim e nunca pensei que me fosse habituar e adaptar tão facilmente a esta situação. Viver numa residência com outros estudantes, dos mais variados sítios, era uma experiência que eu queria ter em Erasmus, não só para poder pôr as minhas capacidades de adaptação à prova, mas também para conhecer e conviver com pessoas noutro tipo de ambiente. Por vezes é complicado viver num lugar com tanta gente diferente e nem sempre as condições são as melhores, quando comparadas ao conforto de um apartamento, mas eu não trocaria esta experiência por nada. 

A meu ver, a residência é uma opção bastante viável, não só para quem não quer gastar muito dinheiro, mas também para quem não quer perder tempo e preocupação em arranjar casa. O dormitório encontra-se numa zona mais residencial, mas muito bem localizada, a cerca de 20 minutos do Aeroporto de Praga, com vários supermercados e serviços por perto e rodeada de espaços verdes. Apesar de não estar alojada no centro da cidade, facilmente me deslocava a qualquer parte, graças a uma ótima rede de transportes (que inclui metro, autocarros e elétricos), usufruindo de um passe extraordinariamente barato.

Quanto à Universidade e ao ensino, posso dizer que no geral fiquei bastante satisfeita. O processo de inscrição nas cadeiras pode ser um pouco stressante, pois estas facilmente ficam sem vagas e nem sempre temos a possibilidade de fazer as cadeiras que mais gostaríamos. Eu acabei por fazer cadeiras diferentes do que estava à espera, algumas com temas sobre os quais não tinha propriamente interesse, mas que me surpreenderam muito pela positiva e que permitiram desafiar-me academicamente. Um dos pontos que não poderia deixar de destacar sobre a Universidade, é o facto de esta promover atividades culturais, como idas ao Teatro Nacional para assistir a um espetáculo de Ópera ou Ballet por um preço ínfimo, algo que considero ser uma oportunidade imperdível.

A juntar a todos os pontos mencionados, a República Checa é um país com vários encantos, sendo que partindo de Praga, facilmente nos deslocamos a outras bonitas cidades. Entre os demais locais que conheci do país, o que mais gostei foi Cesky Krumlov, uma cidadezinha que me deixou fascinada pela sua beleza e por ser diferente de tudo o que alguma vez visitei. Igualmente, a República Checa faz fronteira com vários países, dando-me a possibilidade de ir, por meio de autocarro ou comboio, a diversas cidades europeias como Dresden, Cracóvia, Varsóvia, Viena, Bratislava e Budapeste. As viagens nacionais são extremamente baratas e fazem-se bem indo e voltando no mesmo dia. As viagens transnacionais, apesar de não tão baratas, conseguem-se a preços muito acessíveis, dada a proximidade dos países em questão.

E assim foram passados os três meses do meu Erasmus, entre passeios por Praga, a vida diária académica e viagens. Posso dizer que todos os momentos, mais ou menos positivos, enriqueceram-me e fizeram com que me conhecesse melhor a mim mesma. Praga foi, sem dúvida, o cenário ideal para viver o meu Erasmus. Será para sempre um “até já” a esta cidade!

Experiência ERASMUS da Beatriz Reis.

ERASMUS: Barcelona, o meu maior desafio

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre.

A decisão de ir de Erasmus é mais difícil do que parece previamente; sempre tive dúvidas e receios de ir viver para fora, e nunca achei que fosse algo que estava talhado para fazer. Ainda assim decidi arriscar, afinal de contas pode ser uma oportunidade única na vida. Escolhi Barcelona porque sempre foi das minhas cidades favoritas (muito por culpa do futebol, mas também da sua história). Passei por muitas indecisões, mas, no final, acabei por contrariar tudo o que dizia sobre a possibilidade de estudar no estrangeiro, e fui. 

Em Barcelona, deparei-me com uma realidade semelhante, mas, ao mesmo tempo, diferente. Uma cidade sempre movimentada e cheia de riquezas históricas e lugares por descobrir. Ainda assim não fiquei a residir no centro, dado que a minha faculdade ficava longe, e acabei na residência, a cerca de quarenta minutos do centro. 

Ao contrário da maioria dos relatos de amigos sobre Erasmus, não me deparei com uma forte cultura de Erasmus ou pessoas de vários países, mas sim com muitos estudantes locais, o que dificultou um pouco a integração. Aliado a este facto, tive ainda a experiência de coincidir com os tumultos catalães, o que alterou os sistemas de avaliação e dificultou um pouco a experiência de Erasmus. Porém, as dificuldades não me fizeram aproveitar menos esta experiência porque Barcelona é sempre uma cidade recheada de atividade e novas oportunidades de conhecimento e lazer. 

Com isto, quero transmitir que Erasmus é uma experiência que pode não ser tão perfeita quanto desejaríamos, mas será sem dúvida das maiores da nossa vida. Tinha expetativas que não se cumpriram, porém não voltei desiludido, pois sei o quanto me enriqueceu a nível académico e, principalmente, a nível pessoal.

Se sempre tiveram esta vontade de ir, não deixem que receios vos atrapalhem, afinal de contas, digo, por experiência própria, que quando derem conta já cá estão outra vez. 

Experiências ERASMUS do Ricardo Reis.

Sagrada Família

ERASMUS: Entre Sartori e David

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre.

A escolha do destino Erasmus é um pesadelo para muitos e para mim não foi exceção. Ao entusiasmo de partir na aventura misturavam-se preocupações e mil e um critérios que tinha colocado: tinha que ter boas condições atmosféricas, o destino não podia ser uma metrópole, a universidade tinha que ser minimente reconhecida, não podia ser uma cidade excessivamente cara, o plano de estudos tinha de ser diversificado, o idioma acessível… para esquecer. Acabei com Santigo de Compostela na mão, o que me valeu ser gozada por ir fazer Almeida Garrett e não programa Erasmus. No meio de frustração e cansaço, quase caído do céu aparece aquele que seria o meu destino: Florença, em Itália.

Ora, decidido em limite e depois de alguns breakdowns, Florença acabou por corresponder à maioria dos critérios que procurava: é uma cidade da Europa do Sul, com condições atmosférica semelhantes às Portuguesas onde, em princípio, não se gela no inverno; assemelha-se a uma pequena aldeia que pode ser atravessada a pé ou de bicicleta facilmente; a Universidade de Florença é uma das Universidades mais conhecidas da Europa em Ciência Política, fama ganha graças a ser a casa académica de Sartori; o Departamento de Estudos Políticos oferece flexibilidade na escolha das unidades curriculares, permitindo que se possa realizar cadeiras em diferentes cursos de interesse; o idioma é acessível e a Universidade oferecia cadeiras em Língua Inglesa. Claro, o valor elevado de vida na cidade – 1 euro por café, 5 euros por uma cerveja e quase 400 euros de habitação – deixaram-me em estado de falência para os próximos meses, para não falar que nunca tive tão perto de iniciar um movimento anti-turismo ou anti-reggeaton.

Contudo, foi um sacrifício merecedor. Cada passeio em Florença é saído de um frame cinematográfico e cada olhar sobra a Ponte Vecchio ou o Duomo um sonho. Fiz amigos de um canto ao outro da Europa, viajei por toda a Itália, cantei a Grândola com velhinhos Italianos, engordei uns kilos de pizza e lasanha e despertei intelectualmente para novas questões. Ainda que não tenha sido paixão à primeira vista, Florença conquistou o meu coração e deixou-me de lágrimas nos olhos na partida.

Experiência ERASMUS da Raquel Lindner.

ERASMUS: Memórias de Praga

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre. 

Quando digo que escolhi Praga para passar o meu semestre devido à neve, as gargalhadas são gerais; para além de ter nevado dois dias durante os três meses que estive na cidade, parece uma justificação demasiado simples e sem importância. A verdade é que, todas as razões pelas quais escolhi Praga, tanto as boas como as más, vim a descobri-las, apenas, no final. 

Praga é, sem dúvida, a cidade mais bonita que alguma vez visitei. Ao andar pelo centro, a sensação é a de que recuamos no tempo e estamos constantemente dentro de um filme. A arquitetura parece ter sido pensada ao mínimo pormenor e prolonga-se por qualquer extensa caminhada que possamos fazer. Os nomes dos restaurantes e das lojas estão inscritos nas fachadas dos edifícios com uma caligrafia perfeitamente desenhada e, entre as suas cores, entre os jardins, os miradouros e o cheiro a trdelnik, encontramos uma cidade cheia de vida. Apesar de ser uma forte atração turística, Praga tem os seus sítios escondidos e longe da confusão, no centro ou longe dele; na verdade, os sítios por onde mais gostei de passar, como o café “Globe Bookstore”, o mercado “U Elektry” ou a livraria “Shakespeare”. 

A Charles University, onde estudei, é, na maioria das coisas, diferente da FCSH. O método de ensino vai muito para lá do clássico ouvir o professor e realizar uma frequência no final do semestre; a participação é bastante valorizada e os próprios docentes deixam-nos à vontade para o fazermos, sendo muito mais fácil do que em Portugal contactarmos com eles a propósito de qualquer situação. Para além da variedade de cadeiras que tive oportunidade de realizar, desde “From Anti-Semitism to Anti-Zionism” ou “Hollywood/Europe: a Transnational Film Culture”, todas elas se baseavam numa primeira parte de exposição e numa segunda de discussão dos textos da bibliografia. Não tive frequências, mas sim um trabalho muito mais constante de escrita de ensaios e preparação de apresentações. Para além disso, cada cadeira tem uma carga horária semanal de uma hora e meia, o que nos dá tempo suficiente para prepararmos a próxima aula e digerirmos a anterior. 

Se a parte académica foi bastante positiva e a cidade em si um sítio incrível de conhecer, também houve aspetos negativos. A residência da faculdade, onde vivi, devido às condições, foi um deles. Desde três casas-de-banho para um corredor com vinte pessoas, a um quarto duplo minúsculo com um colchão desconfortável, sem espaços comuns e uma cozinha onde não era possível, sequer, comer sentada, seria o típico lugar onde ficaria durante uma viagem de três dias. Para além disso, os checos não são o povo mais acolhedor do mundo e os funcionários da residência, que não falam inglês, não fogem à regra. A comunicação é, por isso, difícil; o descanso, devido à quantidade de festas e barulho quase todas as noites, muitas vezes, é impossível. Apesar da renda ser pequena, não aconselho a experiência.

O custo de vida é semelhante a Portugal, ou ligeiramente inferior, principalmente, para aqueles habituados a Lisboa. Os transportes públicos que servem a cidade são muito mais baratos e funcionam extremamente bem. Dentro da República Checa é, ainda, possível fazer viagens de duas ou três horas por cerca de dois ou três euros, com a empresa RegioJet. No supermercado, os produtos têm um preço semelhante ao nosso país, assim como as refeições em restaurantes. 

Outro aspeto bastante positivo de viver em Praga é a facilidade em viajar para outros países. Foi-me possível voar até à Dinamarca por cerca de trinta euros, apanhar um autocarro de duas horas até Dresden, na Alemanha, e tirar um fim-de-semana para visitar as capitais da Áustria, da Hungria e da Eslováquia. No entanto, a República Checa está cheia de lugares bonitos para visitar, entre eles Český Krumlov, Kutná Hora ou Karlovy Vary e, sem dúvida, devemos começar por aí. 

Praga permitiu-me conhecer um outro lado da Europa, ainda com muitos vestígios do seu passado; um canto da Europa onde não podemos fugir ao Holocausto e, essa parte, foi das mais marcantes. Desde os bairros judeus, aos museus, aos campos de concentração, é impossível ignorar a história e as suas consequências. Já as estações são mais intensas do que em Portugal e, especialmente, o outono é indescritível; no inverno, com a chegada do Natal, a cidade enche-se de cheiros diferentes, vinho quente e mercados em cada esquina. Praga permitiu-me, também, perceber que uma experiência nunca é o que imaginamos. Principalmente, e depois de já ter vivido várias longas experiências longe de casa, Praga ensinou-me a ter saudade e a saber que é bom tê-la.

Experiência ERASMUS da Marta Vicente.

ERASMUS: Um Semestre na Sciences Po

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre. 

Dizem que realizar Erasmus nos expande os horizontes. Comigo, não foi diferente. Em maio do ano passado, tive a sorte de saber que tinha sido admitida no programa de intercâmbio europeu entre a NOVA e o Institute d’Études Politiques de Paris, também conhecido por Sciences Po. Assim, passei o primeiro semestre do meu último ano da licenciatura em Paris. A Sciences Po é uma universidade bastante prestigiada a nível internacional. No entanto, o que mais me motivou a escolhe-la como instituição de acolhimento ao meu Erasmus foram precisamente a qualidade de ensino e a exigência pelos quais ela se pauta. 

Ao pisar o chão da universidade pela primeira vez, percebi, também, que iria passar um semestre num ambiente bastante multicultural e cosmopolita. Cerca de metade dos estudantes da Sciences Po vêm de outros países que não a França. Também os professores têm, muitas vezes, outras nacionalidades. Além disso, as línguas que compõem este ambiente internacional não se restringem somente às europeias. À Sciences Po chegam alunos de todo o mundo. Durante o semestre que lá passei, conheci estudantes norte-americanos, chineses, australianos, indianos, colombianos, italianos, alemães, brasileiros… ah e claro, franceses! 

Devo, no entanto, ser sincera relativamente ao facto de que encontrar alojamento em Paris é uma tarefa extremamente trabalhosa. Paris é uma cidade muito grande e muito cara. Apesar de a universidade lhes fornecer dicas e conselhos, os estudantes têm que ser autónomos e procurar alojamento por si próprios, já que nem sempre as residências universitárias lhes garantem estadia durante o intercâmbio.

Paris é, também, uma cidade incessantemente deslumbrante. Não há momento algum em que deixem de existir atrações a ver ou a visitar na Cidade das Luzes. Desde o bairro dos artistas em Monmartre, mesmo ao lado da basílica do Sacre-Coeur, até às visitas ao último andar da Torre Eiffel, desde as clássicas obras de arte expostas no Musée d’Orsay até à mais elaborada peça de arte moderna do Centre Pompidou, desde os longos passeios noturnos ao longo do rio Sena até ao detalhado simbolismo do Axe Historique, que se estende dos jardins do Louvre ao Grande Arche de la Défense e onde se encontram a Place de la Concorde e o Arc du Triomphe, desde os segredos bem guardados nos vastos jardins de Versailles até à misteriosa catedral de Notre-Dame. Para não referir a irrecusável gastronomia francesa e a maravilhosa língua romântica. 

Ao fim e ao cabo, posso dizer que voltei a Portugal com uma nova forma de ver a vida e de encarar os problemas. Voltei certamente com vontade de viajar mais e de aprender mais. A Sciences Po proporciona uma experiência Erasmus ligeiramente diferente das descrições tradicionais. Isto porque os estudantes cedo descobrem que irão dedicar muito mais tempo ao estudo do que aos passeios e à vida social. É uma experiência algo intensa. No entanto, é totalmente recompensadora porque nos permite crescer e aprender muito. A Sciences Po permitiu tornar-me uma cidadã da Europa e do mundo, mais consciente e mais autónoma. Em suma, realizar Erasmus na Sciences Po tem, definitivamente, o meu selo de aprovação. 

Experiência ERASMUS da Helena Inácio.

ERASMUS: Atenas, um refúgio

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre. 

Antes do ano letivo começar, houve uma reunião, num auditório da universidade, em que foi providenciado aos alunos de Erasmus algum contexto sobre a instituição – com o eclodir da crise, o financiamento da Panteion diminuiu em cerca de 70%. E com toda a consideração por esta quebra no apoio às universidades públicas, este facto é dito com orgulho; a despeito disto, as propinas continuam a ser 0, já que “a educação é um direito”. 

Eu diria que esta ideia condensa toda a minha memória de Atenas. Eu lembro-me de chegar e estar surpreendida- a cidade não é a metrópole limpa e supermoderna, como eu imaginava. As infraestruturas velhas e os serviços públicos latejam em torno de templos e ruínas espalhadas por toda a cidade. Mas há algo diferente e de puramente especial. Porque a Grécia da filosofia, da democracia, viu-se curvada perante a crise que teve de enfrentar, o que forçou uma população ciente da grandiosidade da sua cultura a depender de mecanismos de solidariedade. Mas ao invés de fervoroso orgulho, tem-se a complacência e empatia para com pessoas em situações semelhantes. E ao andar nas ruas vemos uma subcultura que persevera em passar uma mensagem de tolerância e de solidariedade global.

Andar pela cidade é a amostra perfeita da típica rotina grega- num ambiente completamente relaxado, barulhento, em que os locais tropeçam nas enchentes de turistas à porta dos templos, provavelmente com o seu terceiro café do dia na mão, atrasados para chegar a um qualquer compromisso; os alunos de Erasmus desesperam para agarrar todo e qualquer traço cultural para se embrenharem na enchente que é esta civilização, e no fim, o tempo escapa por entre os dedos, e os únicos traços que acabamos por adotar são a preguiça das horas de sol, e uma pequena quantidade de vocabulário que exalta os ânimos quando tentamos dela fazer uso em sítios públicos.

Falando em factos mais concretos sobre o custo de vida, em termos de renda, Atenas é mais acessível que Lisboa, e (de alguma forma estranha) é mais fácil encontrar casa. A Panteion tem uma boa localização, perto da Acrópole. De resto, o custo de vida parece semelhante a Portugal, com algumas coisas podendo ser mais caras- comida no supermercado, mas nada de mais quando comparado aos preços em Portugal- mas com imensos descontos para os alunos em tudo- 50% nos transportes, e grátis visitar museus e monumentos. Claro que nada pode ser perfeito, e a universidade, apesar de providenciar oportunidades de estudar áreas que nunca poderia ter estudado em Portugal é um bocadinho complicada e desorganizada, e parece estar já um pouco velha, guarnecida em todos os blocos de alunos por grafitis, pósteres de partidos políticos e manifestações, e com aglomerados de fumadores pelos corredores, a pintar as paredes de fumo, impertinentemente tingindo as paredes brancas das tentativas de lavagem dos grafitis. Outra coisa a notar é as greves e ocupações da faculdade. O fim do semestre foi adiado para mais tarde devido à quantidade de mobilizações e ocupações dos alunos da faculdade contra as novas leis que concernem o ensino superior público, aplicadas pelo atual governo. 

Apesar de parecer que enunciei só pontos negativos, é com grande carinho que vou relembrar aquela universidade, e o quanto sinto que aprendi, principalmente pela força de vontade dos alunos em se fazer ouvir. Lembro-me de ir a uma RGA e de nunca ter visto uma RGA numa sala tão cheia, num auditório, com pelo menos 150 alunos, independentemente do quanto se prolonguem as discussões; o diálogo a prolongar-se com uma dialética incrível, puxando por representantes dos alunos de todas as crenças políticas, gerando, por fim, consenso.

Sinto que em seis meses eu não parei em tristeza nunca, mas tenho a perfeita noção do que a realidade ateniense implica- mais sem abrigos, em que muitos deles estão na situação de refugiados, em fila de espera para uma entrevista que pode demorar anos a chegar. A pobreza, contudo, transparece em organizações e sistemas sociais de ajuda mútua- desde políticas do estado como refeições grátis nas universidades (todas as refeições), sistema nacional de saúde totalmente gratuito, até organizações não governamentais, constituídas por locais, sem qualquer hierarquia, tomando todas as suas decisões em assembleias que incluem todos os membros, e que visam integrar as pessoas que beneficiam dos seus serviços, para lutar o estigma da caridade. 

Atenas foi um sonho, foi um cantinho cheio de oportunidades, foi a minha segunda opção que representa agora uma das melhores decisões da minha vida. Não foi a Grécia das ilhas, das praias, não foi a Grécia clássica. Foi a cultura neo-helénica, foi um exemplo de estilo de vida, que eu quero empregar em todo o lado pelo mundo fora. Foi onde eu aprendi que por mais pequena que seja, com consciência de vida em comunidade, em que disponho pelo menos do meu tempo, dedicando-o às minhas causas, eu nunca vou ser tão pequena assim- foi o sítio onde me senti mais enorme.

Experiência ERASMUS da Mariana Cardoso.

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