ERASMUS: Memórias de Praga

As inscrições para o programa de mobilidade ERASMUS+, para o ano letivo 2020/2021, encontram-se abertas até dia 16 de fevereiro. Com o objetivo de dar a conhecer os destinos abrangidos para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais, o NECPRI irá publicar uma série de testemunhos dos vários alunos que estudaram fora durante o primeiro semestre. 

Quando digo que escolhi Praga para passar o meu semestre devido à neve, as gargalhadas são gerais; para além de ter nevado dois dias durante os três meses que estive na cidade, parece uma justificação demasiado simples e sem importância. A verdade é que, todas as razões pelas quais escolhi Praga, tanto as boas como as más, vim a descobri-las, apenas, no final. 

Praga é, sem dúvida, a cidade mais bonita que alguma vez visitei. Ao andar pelo centro, a sensação é a de que recuamos no tempo e estamos constantemente dentro de um filme. A arquitetura parece ter sido pensada ao mínimo pormenor e prolonga-se por qualquer extensa caminhada que possamos fazer. Os nomes dos restaurantes e das lojas estão inscritos nas fachadas dos edifícios com uma caligrafia perfeitamente desenhada e, entre as suas cores, entre os jardins, os miradouros e o cheiro a trdelnik, encontramos uma cidade cheia de vida. Apesar de ser uma forte atração turística, Praga tem os seus sítios escondidos e longe da confusão, no centro ou longe dele; na verdade, os sítios por onde mais gostei de passar, como o café “Globe Bookstore”, o mercado “U Elektry” ou a livraria “Shakespeare”. 

A Charles University, onde estudei, é, na maioria das coisas, diferente da FCSH. O método de ensino vai muito para lá do clássico ouvir o professor e realizar uma frequência no final do semestre; a participação é bastante valorizada e os próprios docentes deixam-nos à vontade para o fazermos, sendo muito mais fácil do que em Portugal contactarmos com eles a propósito de qualquer situação. Para além da variedade de cadeiras que tive oportunidade de realizar, desde “From Anti-Semitism to Anti-Zionism” ou “Hollywood/Europe: a Transnational Film Culture”, todas elas se baseavam numa primeira parte de exposição e numa segunda de discussão dos textos da bibliografia. Não tive frequências, mas sim um trabalho muito mais constante de escrita de ensaios e preparação de apresentações. Para além disso, cada cadeira tem uma carga horária semanal de uma hora e meia, o que nos dá tempo suficiente para prepararmos a próxima aula e digerirmos a anterior. 

Se a parte académica foi bastante positiva e a cidade em si um sítio incrível de conhecer, também houve aspetos negativos. A residência da faculdade, onde vivi, devido às condições, foi um deles. Desde três casas-de-banho para um corredor com vinte pessoas, a um quarto duplo minúsculo com um colchão desconfortável, sem espaços comuns e uma cozinha onde não era possível, sequer, comer sentada, seria o típico lugar onde ficaria durante uma viagem de três dias. Para além disso, os checos não são o povo mais acolhedor do mundo e os funcionários da residência, que não falam inglês, não fogem à regra. A comunicação é, por isso, difícil; o descanso, devido à quantidade de festas e barulho quase todas as noites, muitas vezes, é impossível. Apesar da renda ser pequena, não aconselho a experiência.

O custo de vida é semelhante a Portugal, ou ligeiramente inferior, principalmente, para aqueles habituados a Lisboa. Os transportes públicos que servem a cidade são muito mais baratos e funcionam extremamente bem. Dentro da República Checa é, ainda, possível fazer viagens de duas ou três horas por cerca de dois ou três euros, com a empresa RegioJet. No supermercado, os produtos têm um preço semelhante ao nosso país, assim como as refeições em restaurantes. 

Outro aspeto bastante positivo de viver em Praga é a facilidade em viajar para outros países. Foi-me possível voar até à Dinamarca por cerca de trinta euros, apanhar um autocarro de duas horas até Dresden, na Alemanha, e tirar um fim-de-semana para visitar as capitais da Áustria, da Hungria e da Eslováquia. No entanto, a República Checa está cheia de lugares bonitos para visitar, entre eles Český Krumlov, Kutná Hora ou Karlovy Vary e, sem dúvida, devemos começar por aí. 

Praga permitiu-me conhecer um outro lado da Europa, ainda com muitos vestígios do seu passado; um canto da Europa onde não podemos fugir ao Holocausto e, essa parte, foi das mais marcantes. Desde os bairros judeus, aos museus, aos campos de concentração, é impossível ignorar a história e as suas consequências. Já as estações são mais intensas do que em Portugal e, especialmente, o outono é indescritível; no inverno, com a chegada do Natal, a cidade enche-se de cheiros diferentes, vinho quente e mercados em cada esquina. Praga permitiu-me, também, perceber que uma experiência nunca é o que imaginamos. Principalmente, e depois de já ter vivido várias longas experiências longe de casa, Praga ensinou-me a ter saudade e a saber que é bom tê-la.

Experiência ERASMUS da Marta Vicente.

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